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12 de abril de 2014

Participar do Grupo Comunitário de Saúde Mental é para mim sempre um convite para a descoberta e redescoberta do olhar. Sábado, dia 12 de abril participei de um grupo no ECEU. Na abertura do encontro assistimos a um vídeo da Adélia Prado, em que ela nos falava sobre o assombro de existir e de perceber-se existindo. Fiquei pensando na minha própria existência, em como tenho me constituído como pessoa e construído o meu existir, porque o Grupo Comunitário tem despertado em mim um forte sentimento de voracidade pela vida: não basta apenas viver, eu desejo existir!

Logo em seguida, vieram contribuições riquíssimas dos participantes. Uma em especial que me marcou muito, foi um poema, levado por uma participante, de Antônio Cícero, em que ele nos fala sobre a importância de saber guardar as coisas, não no sentido de trancá-las ou escondê-las, mas de olhá-las e olhá-las novamente, para mantê-las vivas na nossa pele, na nossa a lma. Acredito que a nossa existência é construída justamente por isso: daquilo que guardamos, que mantemos vivo na nossa carne e no nosso espírito.

Depois do encontro fui embora para casa, pensando em tudo o que ouvira naquele dia, pois o trabalho do Grupo Comunitário não se encerra no grupo, mas é construído cotidianamente em cada experiência, em cada gesto, em cada palavra e pensamento do nosso existir. E foi justamente pensando em tudo isso, que me peguei sentindo uma estranha dor, uma dor pulsante, que eu não conseguia e não queria calar. Recorri então ao grande Rubem Alves e, em um de seus livros, “O amor que acende a lua”, descobri um nome para a dor que estava sentindo: “dor-de-ideia”. Rubem Alves nos ensina que as “dores-de-ideias” são diferentes das “dores-de-coisas”, que podem ser eliminadas através de coisas físicas. As dores-de-ideias, contudo, só podem ser resolvidas com outras ideias.

Como o Grupo Comunitário é um espaço extremamente fértil de ideias, resolvi levar minha “dor-de-ideia” para o próximo encontro do grupo no Hospital, dia 15 de abril. Chegando lá me deparei com uma série de outras ideias, dores, histórias e “existires”. Um participante, em especial, chamou minha atenção. Era um senhor, que constrói poemas sem lápis nem papel, guardando-os apenas em sua cabeça. Enquanto ele recitava um de seus poemas, senti como se aqueles versos refletissem suas próprias “dores-de-ideias” e tudo o que ele aprendeu com elas, e fiquei imaginando como é bonita essa capacidade de transformar nossas dores em arte. Nesse dia, descobri também outros tipos de dores, compartilhadas pelos participantes: a dor da saudade por quem está longe, a dor da tristeza pelo sofrimento de um ente querido. Acredito que todas essas são “dores-de-existir”, fazem parte da nossa própria condição humana e que é importante que aprendamos a olhar também para as potencialidades de nossas dores, para aquilo que elas nos ajudam a olhar. Afinal, sem a dor da saudade, seríamos cegos para a alegria da presença, sem a dor da tristeza seríamos incoerentes diante de nossas perdas. E sem as “dores-de-ideias” seríamos indiferentes à nossa própria existência e todas as possibilidades que ela carrega consigo.

Contudo, o grupo me ensinou também, neste encontro, que para ouvir melhor as nossas dores, nós precisamos não apenas de escuta, mas também de silêncio, pois só no silêncio somos capazes de ouvir aos outros e a nós mesmos. Como o doutor Sérgio colocou, o Grupo Comunitário é também um espaço de silêncio e acredito que é nesse espaço entre a conversa com os outros e conosco mesmos e o silêncio que vamos nos construindo e nos formando como pessoas.

Bruna

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