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14 de Fevereiro de 2012

Hoje nosso grupo começou meio tímido, com poucas músicas, poucas poesias. Nesse momento pensei: "nossa, hoje esse grupo não vai para frente". No entanto, o grupo foi caminhando e, quase como se tivesse vida própria, de repente, me surpreendeu, se transformando num dos grupos mais lindos que participei.

Uma participante trouxe uma música que descreve o amor como um lugar seguro; ela aponta o grupo como esse lugar seguro, um lugar de amor. Em seguida, outra participante falou sobre uma poesia encontrada num calendário velho, jogado no chão. Nesse momento, alguém falou sobre a importância da capacidade de olhar para um calendário velho de uma maneira que tornou possível encantar-se com ele, a ponto de levá-lo para o grupo. Tocada por essa fala, outra participante muda de atitude e lê o poema que não era para ser lido: "eu não o trouxe para ler aqui, mas quando te ouvi, fiquei com vontade de ler".

Comenta-se então sobre essa vontade que surgiu de fazer parte, a sensação de que é possível fazer parte e a familiaridade que o grupo é capaz de proporcionar. Talvez, isso seja possível porque estamos compartilhando nossas experiências humanas e emoções. Nesse momento, pensei que é justamente isso; que é possível se sentir familiarizado porque no grupo é realmente possível o sentir, nele há espaço para o amor. Lembrei de um quadro que minha mãe tinha quando eu era criança, no qual estava escrito: "sinto-me um pouco em casa lá onde alguém me sorri". Lembro que todos os dias eu lia essa frase sem entendê-la claramente, mas finalmente a compreendi: como é bom certificar-me de que isso é possível diante de um gesto de amor; de um sorriso passar a sentir-se parte, passar a sentir-se acompanhado.

O grupo continuou, e essa sensação de que ali podia-se estar acompanhado diante das mais diversas emoções permeava o grupo. Uma participante contou sobre um dia em que estava triste e desamparada, olhando uma árvore, e de repente um Sabiá-laranjeira pousou naquela árvore: "foi como se eu tivesse sido transportada para cá por aquele Sabiá-laranjeira, e eu não me senti mais sozinha". E comenta-se sobre esse poder do grupo de abrir uma passagem através da qual é possível um novo olhar: "para quem esteve no grupo e ouviu a história do Sabiá, nunca mais um Sabiá-laranjeira será visto do mesmo modo".

Outra participante conta sobre sua alegria em assistir o ensaio do bloco de Carnaval Os alegrões e ver tanta gente reunida em torno de um propósito - ficar alegre junta. Ao ouvir isso, pensei: "meu Carnaval está salvo, está aqui a minha passagem para conseguir um novo olhar, a partir daquele simples relato". Eu então disse para o grupo como eu estava frustrada por não ter dinheiro para uma viagem de Carnaval, mas naquele momento a frustração foi embora, porque percebi que para ter Carnaval basta juntar alegria.

Uma participante fala do grupo como um lugar onde foi cuidada. Numa época em que tudo estava negro e parecia impossível achar uma experiência preciosa para compartilhar, o grupo ensinou-lhe o que era realmente precioso. Ela nos fala de como é grata por isso. Olho em volta e vejo olhos brilhando com lágrimas, me percebo arrepiada e me pergunto porquê... Outra participante, com o mesmo sentimento de gratidão, lembra como o grupo recebeu sua imensa dor diante da perda de seu irmão: "só aqui eu podia ser eu com toda aquela dor". Foi impossível não se emocionar...

Ressalta-se o grupo como um espaço para a alegria e ao mesmo tempo para tão imensa dor, para o sorriso e para as lágrimas; para tudo que nos move, que nos torna vivos.

O grupo chega ao fim... Volto correndo para casa e, com muita empolgação, acordo minha irmã dizendo: "levanta e vamos comprar espuma e serpentina, vamos montar um bloco com toda a nossa família e ter um ótimo Carnaval". Ela me responde: "você enlouqueceu". Eu então digo: "não, eu só estou viva". E ela insiste: "isso não vai dar certo, minha mãe nunca pulou Carnaval". Minha mãe então se aproxima e diz: "depois de velha vou inventar isso?". A discussão continua, e eu continuo a falar sobre a emoção de um grupo que se reúne em torno da alegria, e em alguns minutos ouço minha irmã dizer: "eu vou querer uma peruca azul"; em seguida, minha mãe completa: "já escolhi um shortinho para usar". Nem sei se esse bloco sai, mas nesses minutinhos vi a vida acontecer, assim como vi no grupo. Acho que isso é o que me encantada no grupo, que me arrepia... essa transformação que se amplia, essa capacidade de sentir junto e carregar isso, aprendendo com a experiência de pessoas tão diferentes.

 

Josiane 

 

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Nesse grupo, coisas foram compartilhadas, trocadas e faladas... falou-se em amor, com a música: 

Talvez o amor (tradução) 

Talvez o amor seja como um local de descanso, um abrigo da tempestade
Ele existe para te oferecer conforto, ele está lá para te manter aquecido
E naqueles tempos de dificuldade quando você está sozinho
A lembrança do amor vai te trazer para casa
 

Talvez o amor seja como uma janela, talvez uma porta aberta
Ele te convida para chegar mais perto, ele quer te mostrar mais
E mesmo se você perder a si mesmo e não souber o que fazer
A lembrança do amor vai te acompanhar
 

O amor para alguns é como uma nuvem, para alguns tão forte como o aço
Para alguns um modo de vida, para alguns um modo de sentir
E alguns dizem que o amor está persistindo
E alguns dizem que está desistindo
E alguns dizem que o amor é tudo
E alguns dizem que não sabem
 

Talvez o amor seja como o oceano, repleto de conflito, repleto de dor
Como uma chama quando está frio lá fora, um trovão quando chove
Se eu viver eternamente e todos os meus sonhos tornarem-se realidade
Minhas lembranças do amor serão sobre você
 

E alguns dizem que o amor está persistindo
E alguns dizem que está desistindo
E alguns dizem que o amor é tudo
E alguns dizem que não sabem
 

Talvez o amor seja como o oceano, repleto de conflito, repleto de dor
Como uma chama quando está frio lá fora, um trovão quando chove
Se eu viver eternamente e todos os meus sonhos tornarem-se realidade
Minhas lembranças do amor serão sobre você 

A participante que trouxe a letra da música falou: "eu trouxe a tradução dessa música que gosto muito porque esse grupo transpira amor e cada um se mostra do jeito que é. Minhas lembranças de amor e acolhimento são daqui".

Falou-se sobre se sentir em casa: "quando as pessoas estão compartilhando sinceramente a vida, a gente se sente perto, familiarizado... se sente em casa". E foi assim mesmo que aconteceu: duas participantes que estavam ali pela primeira vez disseram como estavam se sentindo à vontade ali no grupo. 

Falou-se em alegria, em Carnaval: "no sábado, eu fui a um ensaio de um bloco de carnaval, e me emocionou ver tanta gente ali junta, reunida por um único motivo; o de estar alegre. É emocionante ver como a gente vibra, a ponto de convencer os outros a viver e vibrar junto". Seguindo essa fala, outra participante disse: "nossa, você me ajudou a ganhar meu Carnaval... Eu estava desanimada porque não ia viajar, mas agora não; vou aproveitar meu Carnaval". 

E falou-se até o que estava planejado para não ser dito: "eu não ia falar nada hoje, não estou bem, mas escutando vocês falarem, eu vou contar que um dia, quando peguei o ônibus, estava triste, mal, querendo sumir... e um senhor deixou uns papéis com um lembrete. Eu nem peguei, nem queria ler, então a mulher do meu lado, que havia pegado os papéis, me estendeu a mão e disse 'toma, fica para você, porque eu já li... e me ajudou tanto!'. E aquilo me ajudou também".

Falou-se também em dor. Uma participante relembrou de um outro grupo, em que falou da sua dor de ter perdido um irmão, e nos contou, emocionada, como esses encontros nos grupos a ajudaram a viver aquela dor: "nem tudo que é precioso é só bom". Seguiu-se o comentário: "o sofrimento é positivo quando nos abre para a realidade".

Então, o grupo começou para mim como um encontro com uma pessoa, até então desconhecida e com seus próprios sentimentos guardados. Ao longo de uma hora e meia, passei por vários e vários encontros e trocas... O grupo terminou para mim como um encontro comigo e com os meus sentimentos!!! Eu pude sentir e chorar depois do que vivi ali com todos; os mais diversos sentimentos.

Termino com duas frases que foram faladas em algum momento do grupo: "o que eu acho mais fantástico é a nossa capacidade de enxergar... A cada momento, a gente vê e vive de uma maneira diferente"; "A gente vê a realidade ajudado pelo jeito que os outros vêem a realidade". 

 

Maria Fernanda

 

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O grupo nesse dia começa com o esclarecimento sobre o objetivo de estarmos ali: iremos encontrar as pessoas atentamente, porque a vida está acontecendo, a gente queira ou não. Em seguida, nos lançamos em um bate-papo, com alguns participantes que escolhemos, sob a perspectiva de perceber a importância contida em uma conversa.

O coordenador nos questiona: "por que quem chega aqui pela primeira vez pode se sentir em casa?"; ao que responde: "quando as pessoas estão compartilhando sinceramente o que acontece em suas vidas, isso nos ajuda a ter familiaridade, nos sentimos perto, próximos, em casa, mesmo estando junto com pessoas que a gente nem conhece". Somos convidados, então, a um segundo exercício, o de compartilhar fotos, filmes, frases, músicas - qualquer coisa que alguém tenha encontrado e achado especial: "pode ser até uma piada, ela pode ser valiosa se nos acorda para a possibilidade de sorrir".

A primeira a contribuir distribui a todos um papel com a tradução de uma música dos anos 80 que sempre gostou; mas somente naquela semana tinha conhecido sua tradução, ficando muito surpresa com a letra. Um dos versos da música fala sobre se sentir em casa e sobre isso comenta: "nós chegamos aqui por via do sofrimento, meio tortos, mas depois nos sentimos bem, ficamos felizes em saber que temos o grupo. Para mim o que o torna assim é o amor. Aprendi a expandir isso aqui, dar e receber amor".

Outra participante traz um texto que tinha lido certa vez no mural de um hospital e achou muito bonito, mas ficou com vergonha de pedi-lo. Tempos depois, ela achou o mesmo texto em sua casa, e acrescenta: "de tudo o que as pessoas trazem, o que eu acho mais fantástico é a nossa capacidade de enxergar; quantas pessoas passam pelos murais dos hospitais e não conseguem enxergar?”. Somos, então, encorajados a ficar acordados ao que pode estar passando por nossas vidas, nos colocando diante da possibilidade de redescobrir as pessoas e as coisas, juntos.

Outra pessoa começa dizendo que ia ficar quietinha naquele grupo, mas que agora não podia deixar de falar: ela nos conta uma ocasião em que estando muito mal, em depressão profunda, decidiu deixar a sua cidade. Mas, no caminho, um homem subiu no ônibus em que estava e distribuiu uma mensagem que ela guarda até hoje. Ela lê para todos com emoção: "aquele homem entrou no ônibus não por acaso. Eu estava precisando desse abraço. Eu nem trouxe a mensagem para falar aqui, trouxe para enviar por celular, porque eu não sei fazer isso e as meninas iam me ajudar. Mas essa mensagem foi importante pra mim, até vou xerocar e dar para vocês no próximo encontro".

O coordenador então comenta que o trabalho que estamos realizando nos faz perceber que não buscamos coisas excepcionais, mas algo que tenha valor para cada um, as coisas simples. Logo, passamos para outro exercício, em que compartilhamos os acontecimentos da nossa vida, os momentos em que percebemos que nossa vida está acontecendo.

Um participante começa a nos contar, com entusiasmo e detalhes, sobre a experiência de ter participado de um bloco de Carnaval: "é muito bonito ver tantas pessoas juntas pelo mesmo motivo, que é estar alegre". Em outro momento, comenta: "quando estamos empolgados, a gente vibra a ponto de convencer muita gente a estar junto".

Em seguida, uma das participantes descreve um momento de chateação em que tinha acabado de brigar com o filho, e enquanto o aguardava na aula de equitação, vê um Sabiá-laranjeira, e se lembra de um antigo relato de outra participante do grupo sobre aquele Sabiá, o que a deixa muito feliz e a conforta.

Essa fala inspira outras duas pessoas presentes a comentarem, emocionadas, o quanto a experiência de estar no grupo as havia auxiliado a perceber as coisas preciosas da vida nos momentos mais difíceis, e o quanto isso possibilitou o crescimento pessoal: "eu vi a vida acontecendo, o passo que eu dei no sentido de ser". Ao final, uma síntese: "as coisas preciosas na nossa vida sempre estão acontecendo, o que precisamos é de ajuda para olhar; perceber e estar junto é o método. Nós nunca começamos o grupo com uma dúvida: será que está acontecendo algo? Sempre está acontecendo!". 

O coordenador nos fala sobre estarmos começando a ver a realidade ajudados pelo jeito que o outro a vê, e isso se confirma ao final do grupo, quando uma das participantes comenta que o depoimento sobre o Carnaval mudou a sua percepção do feriado que teria, e que por isso não ficaria mais sozinha em casa; iria visitar seus familiares, pois tinha entendido que o sentido do Carnaval é "estar junto e ficar alegre". O grupo teve muitas outras contribuições sinceras e emocionantes, sendo que ao final dele pudemos nos despedir, mesmo dos que chegaram pela primeira vez, entusiasmados e nos "sentindo em casa"...

 

Marília

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