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30 de Abril de 2013

No grupo de hoje, uma das participantes trouxe um pensamento de Drumond: "eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata!". E ela comentou sobre o risco das coisas passarem despercebidas e sobre como podem nos marcar, de modo a ficarem "tatuadas no coração da gente". Nesse sentido, lembra-se do conselho da avó: "repare!".

Acredito que esse chamado de atenção resume a beleza do caminho do trabalho que percorremos nessa manhã: nós reparamos...

Logo no começo do grupo, na parte do sarau, reparamos na tirinha, carinhosamente distribuída por uma participante, com uma foto (à esquerda) que trouxe a simplicidade de um banho e a expressão alegre de uma criança, acompanhada das palavras de Gandhi:

Se eu pudesse deixar algum presente a você... Deixaria a consciência de aprender tudo o que foi ensinado pelo tempo afora. Deixaria a capacidade de escolher novos rumos. Deixaria para você, se pudesse, o respeito àquilo que é indispensável: além do pão, o trabalho. Além do trabalho, a ação. Deixaria aceso o sentimento de amar a vida.

Escutamos então o comentário dela sobre essa tirinha: "é importante a gente abrir os olhos, tentar olhar para a vida, tentar ver as coisas que a vida nos oferece, de ensinamento, de lição de vida, para que a gente possa abrir o coração... A expressão de felicidade do menino com uma pessoa dando banho nele - e dando banho de caneca, nem água encanada tem, essa alegria dele, por estar recebendo aquela água, aquele banho... A felicidade está escondida nas coisas mais simples da vida, como sentir a água no corpo".

Ouvimos uma mensagem que instruía a "vencer a si mesmo", e outra afirmando que "a chave para vencer vem do amor".

Ouvimos a estudante que contou de um programa que assistiu na televisão, descobrindo um surfista que se salvou de um ataque de tubarão, mas que perdeu um braço. Reparei no entusiasmo dela ao perceber a grande vontade de viver daquele rapaz, ao ponto dela afirmar: "fiquei pensando como o ser humano tem vontade de viver. Vi muito evidente como a vontade de viver é absoluta. Ele não tem o braço, mas acho que não reclama porque olha como um marco de uma vitória que viveu". Reparei como as pessoas podem aproveitar um programa de televisão para pensar: "refleti sobre as cicatrizes que muitas vezes a gente tem e que contribuem para outras experiências".

Ouvimos a leitura de uma mensagem de gratidão, lida por uma das usuárias do hospital, comentando sobre um momento difícil dentro do seu tratamento: "só eu vi o semblante angelical de cada um de vocês quando me viram chorando e o respeito que vocês tiveram com meu sofrimento. Pude perceber a vontade latente de cada um de poder fazer alguma coisa por mim. O jeito de vocês lidarem com a gente desfaz qualquer sintoma esquizofrênico paranoico, eu garanto. Consigo ver claramente como vocês querem o meu bem e estão fazendo o que podem". Ela concluiu seu relato contando que o choro, que começou motivado pelo sofrimento, acabou misturado à emoção diante da compaixão que foi percebendo nas pessoas.

Ouvimos o relato de um participante que perdeu o tio por suicídio. Contou que julgava ter um contato restrito com ele porque os encontros se limitavam a poucas conversas sobre músicas, mas percebeu que estava enganado: "quando eu o perdi, eu vi que às vezes você não percebe, mas tem um apego grande à pessoa". Recorda-se então de ver pessoas tratando mal os outros e critica a sociedade, onde cada um vive por si, concluindo que com mais ajuda, a história do tio poderia ter sido diferente.

Escutamos ainda uma história que começou com um sangramento persistente após um tratamento dentário. A participante contou que depois de esgotar tentativas de colocar gelo no local, mesmo receosa de causar incômodo ao profissional, telefonou em busca de orientação. Recebeu muito mais que do que esperava: ganhou a visita dele, melhorou do sintoma e uma inesperada gratidão do profissional pela oportunidade de realizar seu trabalho: "muito obrigado pela oportunidade". Reparei na surpresa dela diante do fato: "ele ainda agradece! Aquilo me deixou chapada! Que lição".

Fiquei pensando que ele havia tratado mais do que o dente dela, tinha tratado a todos nós da ignorância sobre o significado de um trabalho vivido como vocação. Essa história me ajudou a perceber isso e a agradecer a duas profissionais do hospital, presentes no grupo, com quem também tenho aprendido muito sobre a dedicação ao trabalho.

Diante dos depoimentos, reparei na gratidão que foi tomando conta de nós. Conclui que enquanto houver pessoas generosas o grupo seguirá existindo. Reparei que participando do grupo muitas vezes nos sentimos convidados ao silêncio, percebendo que precisamos de tempo para cuidar dos presentes que nos chegam.

 

Sergio

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