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02 de Setembro de 2013

Há uma frase bonita, atribuída a Pablo Neruda, que diz: "sou onívoro de sentimentos, de seres, de livros, acontecimentos e lutas. Comeria toda a terra. Beberia todo o mar". Penso que o poeta (como todos nós, acho) tinha fome de beleza e se angustiava por saber que nem todas as maravilhas do mundo poderiam ser provadas: não haverá tempo para degustarmos todas as delícias, ou para ler todos os livros, nem para travar todas as batalhas. Ah, eis aqui a presença dolorida da falta: a vida nos lembrando de tudo aquilo que não foi, mas que poderia ter sido.

Há ainda aquele tempo que, sim, foi, mas não o é mais. Tempos alegres de outrora, com seus particulares cheiros, gostos, paisagens e pessoas que não mais encontraremos, a não ser no resgate às vezes doloroso permitido pela memória, a que chamamos saudade.

Ouvimos, no grupo de hoje, o relato de infância de uma integrante que, delicadamente, contou-nos sobre a roda que ela e seus irmãos formavam em volta do pai, para atentamente o escutarem discorrer sabiamente sobre a importância da amizade. Outro integrante, transportado à época do início de sua faculdade pelo relato anterior, contou-nos emocionado de uma fala de sua avó: "Cuide de seus amigos" – cuide das suas experiências, aprendi. Ame e preserve aquilo que já é.

Depois, ou antes, não me lembro bem (o tempo da lembrança não costuma respeitar a cronologia dos fatos), falou-se da saudade de um amigo que há pouco havia partido e de como ele soubera aproveitar e valorizar o tempo que teve. Outro participante lembrou-se enfim do intenso medo que teve em um acidente que quase o arrastou da vida, e de como isso o fez atentar para a beleza dos corriqueiros dias, mesmo os problemáticos. Sim, há dias difíceis. E eles também têm a sua beleza. Deles também sentiremos saudade?

Pensei no privilégio de ter vivido essa experiência de conhecer as lembranças mais belas e importantes de algumas pessoas que ali estavam e de testemunhar toda a alegria, toda a dor, toda a beleza que aqueles relatos carregavam.

Ao final, uma música. Sentada no canto da sala, pude observar grande parte das pessoas que ali estavam. A maior parte delas não havia contado uma história, não havia falado de si. No entanto, as lágrimas, os gestos e os olhares não deixaram dúvida: durante o grupo, todos haviam revisitado uma alegria, um texto, uma música, um amigo ou um lugar que, tal como tudo que se ama, deixou uma lembrança e, com ela, a marca inevitável e bela da saudade.

 

Maria Clara

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