SARAU - TEXTOS

  • Uma vez fui viajar e não voltei. Não por rebeldia ou por ter decidido ficar; simplesmente mudei. Cruzei fronteiras que eu nunca imaginaria cruzar. Nem no mapa, nem na vida. Fui tão longe que olhar para trás não era confortante, era motivador. Conheci o que posso chamar de professores e acessei conhecimentos que nenhum livro poderia me ensinar. Não por serem secretos, mas por serem vivos.. Acrescentei ao dicionário da minha vida novos significados para educação, medo e respeito. Reaprendi o valor de alguns gestos. Como quando criança, a espontaneidade de sorrisos e olhares faz valer a comunicação mais universal que há - a linguagem da alma. Fui acolhido por pessoas, famílias, estranhos, bancos e praças. Entre chãos e humanos, ambos podem ser igualmente frios ou restauradores.. Conheci ruas, estações, aeroportos e me orgulho de ter dificuldade em lembrar seus nomes. Minha memória compartilha do meu desejo de querer refrescar-se com novos e velhos ares. Fiz amigos de verdade. Amigos de estrada não sucumbem ao espaço e nem ao tempo. Amigos de estrada cruzam distâncias; confrontam os anos. São amizades que transpassam verões e invernos com a certeza de novos encontros. Vivi além da minha imaginação. Contrariei expectativas e acumulei riquezas imateriais. Permiti ao meu corpo e minha mente experimentar outros estados de vivência e consciência. Redescobri o que me fascina. Senti calores no peito e dei espaço para meu coração acelerar mais do que uma rotina qualquer permitiria. E quer saber? Conheci outras versões da saudade. Como nós, ela pode ser dura. Mas juro que tem suas fraquezas. Aliás, ela pode ser linda. Com ela, reavaliei meus abraços, respeito mais algumas palavras e me apaixonei ainda mais por meus amigos e minha família. E ainda tenho muito que aprender. Na verdade, tais experiências apenas me dirigem para uma certeza - que ainda tenho muito lugar para conhecer, pessoas a cruzar e conhecimento para experimentar. Uma fez fui viajar… e foi a partir deste momento que entendi que qualquer viagem é uma ida sem volta.

    Marcelo Penteado

    Contribuição de Marília, referindo perceber que o texto não se limitava a um momento de viagem e como “nossos caminhos são viagens sem volta, como a gente vai caminhando, se modificando e se tornando outra pessoa”. (02/08/14)


  •  A Carolina

     Querida, ao pé do leito derradeiro
    Em que descansas dessa longa vida,
    Aqui venho e virei, pobre querida,
    Trazer-te o coração do companheiro.
     
    Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
    Que, a despeito de toda humana lida,
    Fez a nossa existência apetecida
    E num recanto pôs um mundo inteiro.
     
    Trago-te flores, - restos arrancados
    Da terra que nos viu passar unidos
    E ora mortos nos deixa separados.
     
    Que eu, se tenho nos olhos malferidos
    Pensamentos de vida formulados,
    São pensamentos idos e vividos.

     Machado de Assis

    Contribuição de Leila, declamando o poema que Machado de Assis dedicou a sua esposa quando ela faleceu e fazendo o seguinte comentário: “um dia eu ainda vou merecer tal dedicação.” (22/07/14)


  • Sempre que choveu parou

    Paulinho Moska

    Contribuição de Fernanda, referindo-se a frase descoberta numa música que faz referência a esperança de que o sol volte a brilhar: “me vem na memória quando as coisas estão muito difíceis, eu lembro que sempre que choveu parou... Eu me lembro que uma hora vai parar... tanto a chuva real, como as nossas emoções... Sempre para.” (15/07/14)


  • O mais importante e bonito do mundo é isto:
    que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando.

    Guimarães Rosa

     Contribuição de Carmen Rita em 01/07/14


  • Sonhar é dar à vida nova cor,
    Dar gosto bom às lágrimas de dor.
    O sol pode apagar, o mar perder a voz,
    Mas nunca morre um sonho bom dentro de nós.

    Mário Lago

    Contribuição trazida por Marina, referindo que muitas vezes acreditou não possuir sonhos, mas está descobrindo que "no fundo no fundo cada um de nós tem um sonho, só que pode estar guardadinho". (01/07/14)


  • Mãos
     
    Arregale seus olhos e olhe.
    Maravilhe-se com aquilo que o circunda.
    Olhe suas mãos:
    O que você pode fazer com essas
    suas pequenas, pobres mãos?
    Roliças e aduncas, peludas e nodosas,
    refinadas e rachadas pelo trabalho,
    são suas, essas belíssimas mãos;
    use-as, modifique, torne sua a criação,
    mas maravilhe-se,  olhe,
    contemple, agradeça;
    não coloque sobre o pedestal
    essas suas pequenas e pobres
    belíssimas mãos.

    Virgilio Resi


    Contribuição trazida por Maria Luiza contando que a lembrança da poesia veio em um momento em que acompanhava o pai em um tratamento médico e segurou as mãos dele. Esta experiência a fez pensar no significado das mãos que expressam vida: “outras vezes eu já tinha segurado nas mãos dele, mas nesse final de semana, no domingo, eu fiquei o tempo todo segurando nas mãos dele e ai me lembrei dessa poesia, do quanto ele já trabalhou, e a poesia fala das mãos rachadas pelo trabalho e afinadas assim devido a idade e ai eu fiquei pensando: Nossa! O quanto que o meu pai já trabalhou... quanto significado nas mãos porque eu sei que o meu pai já trabalhou muito... Isso para mim me fez pensar o quanto o meu pai já me fez de bondade, de carinho e que ele já me doou tanto.” (03/06/14)


  • Aula de Leitura

    A leitura é muito mais
    do que decifrar palavras
    Quem quiser parar pra ver
    pode até se surpreender
    vai ler nas folhas do chão
    se é outono ou verão;
    nas ondas soltas do mar
    se é hora de navegar;
    e no jeito da pessoa
    se trabalha ou se é à-toa
    na cara do lutador,
    quando está sentindo dor;
    vai ler na casa de alguém
    o gosto que o dono tem;
    e no pêlo do cachorro,
    se é melhor gritar socorro;
    e na cinza da fumaça,
    o tamanho da desgraça;
    e no tom que sopra o vento,
    se corre o barco ou se vai lento;
    e também no calor da fruta,
    e no cheiro da comida,
    e no ronco do motor,
    e nos dentes do cavalo,
    e na pele da pessoa,
    e no brilho do sorriso,
    vai ler nas nuvens no céu,
    vai ler na palma da mão,
    vai ler até nas estrelas,
    e no som do coração.
    Uma arte que dá medo
    é a de ler um olhar,
    pois os olhos tem segredos
    difíceis de decifrar.

    Ricardo Azevedo

    Contribuição trazida por Natália, referindo que percebe uma relação entre o poema e a proposta do grupo: “Quando o poeta diz que a leitura é muito mais do que decifrar palavras acho que ele fala de observar o dia a dia, o cotidiano, o mundo e de ver poesia. Não necessariamente naquilo que é belo porque ele fala também que é possível ler na cara do lutador quando ele está sentindo dor... E termina de uma maneira que eu achei muito bonita e surpreendente, pela profundidade:  uma arte que dá medo é a de ler um olhar, pois os olhos tem segredos difíceis de decifrar". (03/06/14)


  • Guardar

    Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
    Em cofre não se guarda coisa alguma.
    Em cofre perde-se a coisa à vista.
    Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la,
    Isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
    Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela,
    Isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
    Isto é, estar por ela ou ser por ela.
    Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
    Do que um pássaro sem voos.
    Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
    Por isso se declara e declama um poema:
    Para guardá-lo:
    Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
    Guarde o que quer que guarda um poema:
    Por isso o lance do poema:
    Por guardar-se o que se quer guardar.

    Antônio Cícero

    Contribuição trazida por Ana Flávia: “Acho que esse poema tem a ver com viver com liberdade, que não é guardar, é um guardar diferente.” (12/04/14)


  • “... O que alimenta a minha poesia é (...) o próprio susto e o próprio espanto que eu tenho com a vida, e a vida que eu tenho é a de todo mundo, é só o cotidiano, eu não tenho nada diferente (...) Porque o que a pessoa tem mais do que isso? Essa experiência diária, cotidiana, de viver e de acudir as necessidades básicas da vida, as paixões nossas, as boas e as perversas, é disso que todo poeta, todo autor fala, é das paixões humanas, da perplexidade de existir, do assombro que é existir, existir é muito esquisito, é muito perturbador saber e ver-se existindo. E eu tenho que dar uma resposta pra essa vida (...) As pessoas são singulares, né. É muito estranha essa singularidade das pessoas também. Não se repetem, né. Fazendo as mesmas bobagens e as mesmas maravilhas."

    Trecho da fala de Adélia Prado no programa de TV “Roda Viva”, em 24/03/14
    (disponível em http://www.youtube.com/watch?v=amxW1k6coMo)

    Contribuição trazida por Sergio: “Acho que [esse vídeo] é uma grande ajuda pra gente entender porque está aqui [no Grupo Comunitário], porque as pessoas são únicas e o cotidiano é sempre novo; esse assombro de existir. São essas coisas que a gente valoriza, o fato de que a nossa vida é sempre nova, e o exercício que fazemos aqui é ir olhando pra essa novidade do existir.” (12/04/14)


  • Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas. Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.  E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar. Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.

    Cora Coralina

    Contribuição trazida por Natália, referindo-se a reflexão feita a partir do poema e do encontro com uma paciente no hospital: “ela falava muitas coisas que me tocavam. Uma das coisas que ela sempre falava [era] que ela queria perdoar ou fazer as coisas do coração pra fora, e não da boca pra fora." (12/04/14)



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